Nem quero acreditar que, pouco a pouco, livro a livro, estou no bom caminho para terminar o meu GoodReads Reading Challenge! Confesso que não tem sido fácil, e isso só torna o desafio mais interessante e motivador (especialmente quando já li 15 dos 30 livros a que me comprometi).
Os 5/30 livros e os 10/30 livros, anteriormente postados aqui no blog.
Sem mais demora, aqui vão eles:
11 - A Court of Mist and Fury, de Sarah J. Maas
Um livro absolutamente perfeito. Podem ver como foi comprar o livro aqui e a experiência de leitura.
12 - Clockwork Angel, de Cassandra Clare
Este livro é o primeiro da trilogia The Infernal Devices, e apesar de não ter sido o meu favorito, foi um começo interessante.
Experiência de leitura aqui.
13 - Revealed, de P.C. e Kristin Cast
O penúltimo livro da saga House of Night. Estou muito entusiasmada para ler o último livro!
Experiência de leitura aqui.
14 - The Elite, de Kiera Cass
O segundo livro de uma trilogia. Planeio ler o próximo.
Experiência de leitura aqui.
15 - Zenith, de Sasha Alsberg e Lindsay Cummings
Um livro pequenino que pedia mais páginas, bastante promissor.
Experiência de leitura em breve.
Estes cinco livros foram, sem dúvida, um dos melhores períodos de leitura que eu podia ter pedido. Gostei de todos eles, algo que é raro.
29 de junho de 2016
Goodreads Reading Challenge: a meio do caminho
21 de junho de 2016
11 de junho de 2016
Não me encaixo no padrão de fábrica
Terminei os exames há um mês atrás, terminei as minhas aulas há dois, e estou uma semana sozinha em casa porque a minha mãe decidiu ir viajar uma semana. Continuo a trabalhar que nem uma louca, na esperança de conseguir poupar o suficiente para conseguir passar 5 dias descansada em Madrid em agosto (porque esta alminha não viu sol durante os meses de inverno, e aqui em Londres ele também raramente aparece durante o verão). No início, pensei que era melhor escrever o que tenho a dizer no meu diário (que está a ganhar pó na gaveta porque não escrevo nele há muito tempo), mas também pensei que jamais me calaria sobre este assunto e acredito que muitos dos que vão ler este texto vou pensar que já passaram por uma experiência semelhante e, se esse não for o caso, vão sentir o meu pesar no coração.
Tudo começou o ano passado, quando estava na Aston University. As minhas notas eram sempre as melhores em todas as disciplinas, com exceção na Tradução. Pelos vistos, o meu problema era não ser nativa tanto no Inglês como no Espanhol, algo que eu considerei bastante injusto, visto que tinha feito o meu exame de Inglês, uma entrevista por telefone em Espanhol, e passei a ambas com notas fantásticas. Infeliz numa cidade que não gostava, mudei-me para Londres onde rapidamente arranjei um trabalho e tinha a minha família. Parece que não, que foi à uma eternidade atrás que me mudei para cá, mas foi só há um ano, dois desde que me mudei para o Reino Unido.
Lembro-me como se fosse ontem de estar no Secundário e finalmente ter dito à minha Professora de Português que não entendia um poema de Fernando Pessoa, para grande surpresa de todos os meus colegas. Lembro-me também da bondade que me mostrou quando me ajudou e da sua amabilidade em escrever a carta de recomendação para a universidade do Reino Unido. Também me lembro do meu Professor de História e da sua capacidade quase inumana de fazer uma aluna que só passava com 50% no 2.º e 3.º ciclos nos testes de História, ter 19 no exame nacional. Lembro-me também de nos “roubar” os livros quando líamos nas suas aulas, mas sempre devolvê-los e de ter umas alunas a pintar as unhas na sua aula (não era eu, prometo) e não dizer nada porque os seus outros alunos estavam concentrados. Lembro-me do seu quase sorriso quando alguém dizia alguma piada ou fazia alguma pergunta sem senso algum. Lembro-me quando me olhou nos olhos uma última vez dias depois de me ter entregado a sua carta de recomendação para eu poder entrar na universidade. Lembro-me da minha Professora de Espanhol não poder ir dar-nos aula quando havia greve, mas também me lembro do dia em que apareceu porque o seu marido amavelmente disponibilizou-se em dar-lhe boleia e todos nós, surpresos, ficámos agradecidos por isso. Foram essas aulas de Espanhol que me deram a nota para poder entrar na universidade.
Lembro-me como se fosse ontem do momento em que entrei para a Faculdade de Letras e amava estudar Línguas, menos Linguagem Humana. Lembro-me como, depois de um exame horrível, cancelei a cadeira de Estudo das Culturas. Lembro-me de amar Linguagem e Comunicação mas apenas ter treze nos testes. Ainda me lembro do sorriso e bondade da Professora de Inglês quando me viu sentada à porta da sala à espera para fazer o exame e me convidou a entrar, dando-me assim mais 20 minutos para completar o teste, tempo que podia não mo ter dado. Lembro-me da minha Professora de Espanhol dizer que conhecia a minha cara numa aula em que todos apareceram porque era suposto dar a nota do teste, quando na aula anterior só meia dúzia de gatos pingados tinham aparecido.
Lembro-me como se fosse ontem de ter recebido o telefonema a dizer que tinha entrado na Aston University. Mal sabia eu o que me esperava. Para além do longo tempo de solidão, não criei amizades durante aquele ano, e vi o quanto a frieza britânica podia queimar o coração e parti-lo. Tentei passar esse rio de água gélida, tentei chegar ao coração das pessoas da maneira mais genuína possível, mas sem conseguir. Lembro-me como se fosse ontem do momento em que aceitei um trabalho em que o meu dever era deitar comida para o lixo porque tinha que ganhar dinheiro para comprar a minha própria comida. Lembro-me do momento de, um dia estar à espera do elevador na Aston University, a minha Professora de Introdução à América Latina ter-me perguntado se eu estava bem. Depois de meses sozinha, tentando manter a compostura para com a minha família, desmanchei-me em lágrimas naquele momento, em frente a uma pessoa que não conhecia mas que me acolheu de braços abertos. Lembro-me da minha Professora de Introdução a Espanha dizer o meu nome, Ana Teresa, como se fosse tudo só uma sílaba e lembro-me de como falava tão eloquentemente sobre a História de Espanha, tema que, graças a ela e ao meu Professor de História, tanto me encanta agora. Lembro-me do sorriso da minha Professora de Francês ao notar que eu fazia os trabalhos de casa, e os trabalhos que não eram necessários fazer.
Fui feliz na Aston, enquanto estava dentro de quatro paredes no meu quarto, ou na sala de aula. Mas fora disso, não era feliz. Conheci escritoras naqueles meses, escritoras como Sarah J. Maas que me fizeram acreditar que eu podia fazer melhor, Gayle Forman que fez agarrar-me à pouca esperança que eu tinha dentro de mim, e Veronica Roth que me olhou nos olhos e escreveu “Be Strong” no seu autógrafo. Não sei como, mas sei que ela me leu naqueles segundos. Agarrei-me àquelas duas palavras como nunca. Por isso, mudei. Infeliz, mudei-me para Londres, onde um dia uma senhora apareceu na loja onde trabalhava e disse que ensinava Espanhol na universidade do outro lado da rua. Investiguei, agarrei-me à esperança. Fui corajosa, fiz o contacto. Fiz melhor, entreguei-me de corpo e alma e dei tudo o que me pediram à University of Westminster dentro dos seus prazos.
No meu primeiro dia, na primeira semana de aulas, percebi como as coisas funcionavam na Westminster: era tudo mais prático, menos teórico. Tinha mais cadeiras de tradução, não tinha Francês, e não tinha História. Aos poucos, fui conhecendo os meus professores e rapidamente percebi que as notas que nos davam eram diferentes: aqui, 70% é considerado um 100%, e com 40% passa-se a cadeira. Nunca me disseram que conseguir um 70% é uma tarefa impossível, considerando que estamos numa área “aberta”, ou seja, livre de interpretações e onde os parâmetros não são delineados claramente. No meu primeiro essay (composição escrita), tive uma nota baixinha, mas okay. Fiz melhor no próximo. No problem. Entretanto, fui criando amizades das quais não me arrependo – interagir era uma parte que me faltava em grande parte. O primeiro semestre foi bom, nada de excecional, mas tive boas notas, notas das quais me orgulho e, já que não se consegue o 70%, fica-se feliz com o 65%, não é verdade? A verdade é que quando me chamaram de “má tradutora” na Aston, desanimei imediatamente. Quando cheguei à Westminster, a motivação voltou, mas no segundo semestre a coisa desabou de novo. Talvez pela mudança de Professor, talvez pela mudança de língua (no segundo semestre a tradução focou-se em Inglês-Espanhol). Ora bem, não sou nativa no Espanhol, não vivo no país, mas considero que faço a minha boa quota de investigação em relação à língua porque estudo (e com isto quero dizer que faço sempre os trabalhos de casa), leio o El País diariamente (ás vezes mais do que uma notícia) e até já leio em Espanhol.
Não me queixei das notas relativamente mais baixas que as minhas traduções de Inglês-Espanhol tiveram – sei o que fiz, sei o que sei, e sei que não sou boa nessas traduções, um erro humano que admito completamente. O que não admito é ter recebido uma nota tão baixa numa composição escrita que fiz. E aqui, a meio do texto, está o cerne da questão que me faz relembrar todo o meu percurso e me traz a vontade de chorar. Não é de frustração ou de raiva. Não, já não é. Não é do sentido de injustiça – a partir do momento em que não se consegue passar do 70% pensa-se duas vezes no sentido de justiça. É de tristeza.
Vou explicar: nesta composição, tinha que responder à questão: será que a tradução é politicamente correta? Peguei nesta pergunta sem papas na língua e um limite de mil palavras. Fiz o essay um mês antes da sua entrega, tive três semanas de pesquisa e duas antes disso em que só sonhei em escrever o essay. Há que fazer notar que existem duas fontes para a minha escrita: o meus sonhos, onde podem aparecer imagens, ou até mesmo a página de Word e eu imagino-me a escrever (esta é a fonte de onde saem os meus essays e a minhas histórias), ou porque o meu ser não aguenta mais as emoções que assolam o corpo (como neste caso). Pesquisei, escrevi, revi três vezes, eliminei as palavras que não necessitava, e entreguei o essay. Estava realmente feliz, orgulhosa, do meu essay. O primeiro parágrafo não precisou de pesquisa – tudo estava na minha cabeça devido às aulas de Introdução à América Latina que tinha tido na Aston, mas lá fiz o favor de pesquisar alguns sites (que eu li, para verificar se coincidiam com o que tinha escrito) e colocá-los na bibliografia, sabendo que se não o fizesse seria altamente penalizada. Falei sobre La Malinche e o seu papel como tradutora-intérprete durante a colonização espanhola nas Américas, papel esse que evitou muitas guerras. No segundo parágrafo falei sobre o Padre Sardinha, que foi comido por uma tribo que considerava comer pessoas importantes um símbolo de respeito (e aqui coloquei que “sardine” significava “sardinha”, para grande ironia do Destino, ao que a Professora disse que eu tinha que referenciar a tradução; engraçado como escrevo e falo em Inglês e ninguém me pergunta para referenciar o dicionário em que eu aprendi a falar Inglês); este ato foi considerado algo horripilante para a civilização europeia, algo que podia ter sido facilmente explicado se a supremacia de uma cultura em relação a outra não fosse a moda daqueles séculos de Descobrimento (onde a tradução teve um papel importante). E por fim, falei sobre o Gaélico na Irlanda e na Escócia (algo que a Diana Gabaldon ficaria super feliz) e como isso afetou a tradução, uma vez que tudo era traduzido para o Inglês, mas nada para Gaélico, como forma de acabar com a Língua. Tive 54%, a nota mais baixa de sempre desde que entrei para a universidade. Depois de muito pensar sobre o assunto, fui perguntar à Professora responsável por essa cadeira o porquê de uma nota tão baixa. Dois dias depois, respondeu com uma lista de “não fez isto” que me trouxe às lágrimas. E mais uma vez, a tristeza, porque vi que o meu esforço, carinho e dedicação não são considerados, porque não consideram que eu sou uma aluna que se dedica e não consideram os pontos bons do meu essay, apenas o que eu não mencionei e devia de ter mencionado. Eu podia ter mencionado, sim, claro, se me tivessem dado um guia sobre o que escrever, algo que nunca me foi dado. Deram-me uma cómoda do IKEA sem as instruções de construção, e eu construí algo magnífico, mas que não corresponde à cómoda eu era suposto construir.
O ano passado perguntaram-me o porquê de eu não querer ir para tradução. Respondi que era porque estava desmotivada e disseram que não era boa tradutora.
Hoje perguntam-me o porquê de eu não querer ir para tradução. Respondo que não estou para viver o que resto da minha vida a ser criticada.
Vou terminar o curso? Sim, afinal, só tenho mais um ano pela frente. Mas não quero seguir tradução se isto implica cortarem a minha criatividade, a minha maneira de ver o mundo, fazerem-me esquecer de quem eu sou e entrar naquele padrão de fábrica. Eu não sou padrão de fábrica. Nenhum de nós é. E tentarem encaixarem-nos num padrão só nos fará mudar de rumo. Sei que vivi pouco, mas sei que se este não é o caminho, então significa que tenho outra oportunidade à minha espera.
Quis seguir tradução porque me fascinava. Continua a fascinar-me. Vou olhar sempre para um tradutor e lembrar-me de todas as traduções boas que fiz. Mas também vou lembrar-me desta nota, desta tristeza dentro de mim que me faz questionar tudo o que conquistei até agora. Não gosto disso, acho que nenhum de nós gosta e lamento esforçar-me tanto para ter uma nota tão baixa. Não sou o género de pessoa a quem podem bater na mão e dizer “não é assim que se faz”; sou o tipo de pessoa a quem, se quiserem um padrão de fábrica, têm que me mostrar as medidas e aí não haverá forma de me baterem na mão, porque a obra será perfeita, será o padrão que tanto desejam.
©TeresaBarreiros
Para o blog “Livros e mais livros”
Tudo começou o ano passado, quando estava na Aston University. As minhas notas eram sempre as melhores em todas as disciplinas, com exceção na Tradução. Pelos vistos, o meu problema era não ser nativa tanto no Inglês como no Espanhol, algo que eu considerei bastante injusto, visto que tinha feito o meu exame de Inglês, uma entrevista por telefone em Espanhol, e passei a ambas com notas fantásticas. Infeliz numa cidade que não gostava, mudei-me para Londres onde rapidamente arranjei um trabalho e tinha a minha família. Parece que não, que foi à uma eternidade atrás que me mudei para cá, mas foi só há um ano, dois desde que me mudei para o Reino Unido.
Lembro-me como se fosse ontem de estar no Secundário e finalmente ter dito à minha Professora de Português que não entendia um poema de Fernando Pessoa, para grande surpresa de todos os meus colegas. Lembro-me também da bondade que me mostrou quando me ajudou e da sua amabilidade em escrever a carta de recomendação para a universidade do Reino Unido. Também me lembro do meu Professor de História e da sua capacidade quase inumana de fazer uma aluna que só passava com 50% no 2.º e 3.º ciclos nos testes de História, ter 19 no exame nacional. Lembro-me também de nos “roubar” os livros quando líamos nas suas aulas, mas sempre devolvê-los e de ter umas alunas a pintar as unhas na sua aula (não era eu, prometo) e não dizer nada porque os seus outros alunos estavam concentrados. Lembro-me do seu quase sorriso quando alguém dizia alguma piada ou fazia alguma pergunta sem senso algum. Lembro-me quando me olhou nos olhos uma última vez dias depois de me ter entregado a sua carta de recomendação para eu poder entrar na universidade. Lembro-me da minha Professora de Espanhol não poder ir dar-nos aula quando havia greve, mas também me lembro do dia em que apareceu porque o seu marido amavelmente disponibilizou-se em dar-lhe boleia e todos nós, surpresos, ficámos agradecidos por isso. Foram essas aulas de Espanhol que me deram a nota para poder entrar na universidade.
Lembro-me como se fosse ontem do momento em que entrei para a Faculdade de Letras e amava estudar Línguas, menos Linguagem Humana. Lembro-me como, depois de um exame horrível, cancelei a cadeira de Estudo das Culturas. Lembro-me de amar Linguagem e Comunicação mas apenas ter treze nos testes. Ainda me lembro do sorriso e bondade da Professora de Inglês quando me viu sentada à porta da sala à espera para fazer o exame e me convidou a entrar, dando-me assim mais 20 minutos para completar o teste, tempo que podia não mo ter dado. Lembro-me da minha Professora de Espanhol dizer que conhecia a minha cara numa aula em que todos apareceram porque era suposto dar a nota do teste, quando na aula anterior só meia dúzia de gatos pingados tinham aparecido.
Lembro-me como se fosse ontem de ter recebido o telefonema a dizer que tinha entrado na Aston University. Mal sabia eu o que me esperava. Para além do longo tempo de solidão, não criei amizades durante aquele ano, e vi o quanto a frieza britânica podia queimar o coração e parti-lo. Tentei passar esse rio de água gélida, tentei chegar ao coração das pessoas da maneira mais genuína possível, mas sem conseguir. Lembro-me como se fosse ontem do momento em que aceitei um trabalho em que o meu dever era deitar comida para o lixo porque tinha que ganhar dinheiro para comprar a minha própria comida. Lembro-me do momento de, um dia estar à espera do elevador na Aston University, a minha Professora de Introdução à América Latina ter-me perguntado se eu estava bem. Depois de meses sozinha, tentando manter a compostura para com a minha família, desmanchei-me em lágrimas naquele momento, em frente a uma pessoa que não conhecia mas que me acolheu de braços abertos. Lembro-me da minha Professora de Introdução a Espanha dizer o meu nome, Ana Teresa, como se fosse tudo só uma sílaba e lembro-me de como falava tão eloquentemente sobre a História de Espanha, tema que, graças a ela e ao meu Professor de História, tanto me encanta agora. Lembro-me do sorriso da minha Professora de Francês ao notar que eu fazia os trabalhos de casa, e os trabalhos que não eram necessários fazer.
Fui feliz na Aston, enquanto estava dentro de quatro paredes no meu quarto, ou na sala de aula. Mas fora disso, não era feliz. Conheci escritoras naqueles meses, escritoras como Sarah J. Maas que me fizeram acreditar que eu podia fazer melhor, Gayle Forman que fez agarrar-me à pouca esperança que eu tinha dentro de mim, e Veronica Roth que me olhou nos olhos e escreveu “Be Strong” no seu autógrafo. Não sei como, mas sei que ela me leu naqueles segundos. Agarrei-me àquelas duas palavras como nunca. Por isso, mudei. Infeliz, mudei-me para Londres, onde um dia uma senhora apareceu na loja onde trabalhava e disse que ensinava Espanhol na universidade do outro lado da rua. Investiguei, agarrei-me à esperança. Fui corajosa, fiz o contacto. Fiz melhor, entreguei-me de corpo e alma e dei tudo o que me pediram à University of Westminster dentro dos seus prazos.
No meu primeiro dia, na primeira semana de aulas, percebi como as coisas funcionavam na Westminster: era tudo mais prático, menos teórico. Tinha mais cadeiras de tradução, não tinha Francês, e não tinha História. Aos poucos, fui conhecendo os meus professores e rapidamente percebi que as notas que nos davam eram diferentes: aqui, 70% é considerado um 100%, e com 40% passa-se a cadeira. Nunca me disseram que conseguir um 70% é uma tarefa impossível, considerando que estamos numa área “aberta”, ou seja, livre de interpretações e onde os parâmetros não são delineados claramente. No meu primeiro essay (composição escrita), tive uma nota baixinha, mas okay. Fiz melhor no próximo. No problem. Entretanto, fui criando amizades das quais não me arrependo – interagir era uma parte que me faltava em grande parte. O primeiro semestre foi bom, nada de excecional, mas tive boas notas, notas das quais me orgulho e, já que não se consegue o 70%, fica-se feliz com o 65%, não é verdade? A verdade é que quando me chamaram de “má tradutora” na Aston, desanimei imediatamente. Quando cheguei à Westminster, a motivação voltou, mas no segundo semestre a coisa desabou de novo. Talvez pela mudança de Professor, talvez pela mudança de língua (no segundo semestre a tradução focou-se em Inglês-Espanhol). Ora bem, não sou nativa no Espanhol, não vivo no país, mas considero que faço a minha boa quota de investigação em relação à língua porque estudo (e com isto quero dizer que faço sempre os trabalhos de casa), leio o El País diariamente (ás vezes mais do que uma notícia) e até já leio em Espanhol.
Não me queixei das notas relativamente mais baixas que as minhas traduções de Inglês-Espanhol tiveram – sei o que fiz, sei o que sei, e sei que não sou boa nessas traduções, um erro humano que admito completamente. O que não admito é ter recebido uma nota tão baixa numa composição escrita que fiz. E aqui, a meio do texto, está o cerne da questão que me faz relembrar todo o meu percurso e me traz a vontade de chorar. Não é de frustração ou de raiva. Não, já não é. Não é do sentido de injustiça – a partir do momento em que não se consegue passar do 70% pensa-se duas vezes no sentido de justiça. É de tristeza.
Vou explicar: nesta composição, tinha que responder à questão: será que a tradução é politicamente correta? Peguei nesta pergunta sem papas na língua e um limite de mil palavras. Fiz o essay um mês antes da sua entrega, tive três semanas de pesquisa e duas antes disso em que só sonhei em escrever o essay. Há que fazer notar que existem duas fontes para a minha escrita: o meus sonhos, onde podem aparecer imagens, ou até mesmo a página de Word e eu imagino-me a escrever (esta é a fonte de onde saem os meus essays e a minhas histórias), ou porque o meu ser não aguenta mais as emoções que assolam o corpo (como neste caso). Pesquisei, escrevi, revi três vezes, eliminei as palavras que não necessitava, e entreguei o essay. Estava realmente feliz, orgulhosa, do meu essay. O primeiro parágrafo não precisou de pesquisa – tudo estava na minha cabeça devido às aulas de Introdução à América Latina que tinha tido na Aston, mas lá fiz o favor de pesquisar alguns sites (que eu li, para verificar se coincidiam com o que tinha escrito) e colocá-los na bibliografia, sabendo que se não o fizesse seria altamente penalizada. Falei sobre La Malinche e o seu papel como tradutora-intérprete durante a colonização espanhola nas Américas, papel esse que evitou muitas guerras. No segundo parágrafo falei sobre o Padre Sardinha, que foi comido por uma tribo que considerava comer pessoas importantes um símbolo de respeito (e aqui coloquei que “sardine” significava “sardinha”, para grande ironia do Destino, ao que a Professora disse que eu tinha que referenciar a tradução; engraçado como escrevo e falo em Inglês e ninguém me pergunta para referenciar o dicionário em que eu aprendi a falar Inglês); este ato foi considerado algo horripilante para a civilização europeia, algo que podia ter sido facilmente explicado se a supremacia de uma cultura em relação a outra não fosse a moda daqueles séculos de Descobrimento (onde a tradução teve um papel importante). E por fim, falei sobre o Gaélico na Irlanda e na Escócia (algo que a Diana Gabaldon ficaria super feliz) e como isso afetou a tradução, uma vez que tudo era traduzido para o Inglês, mas nada para Gaélico, como forma de acabar com a Língua. Tive 54%, a nota mais baixa de sempre desde que entrei para a universidade. Depois de muito pensar sobre o assunto, fui perguntar à Professora responsável por essa cadeira o porquê de uma nota tão baixa. Dois dias depois, respondeu com uma lista de “não fez isto” que me trouxe às lágrimas. E mais uma vez, a tristeza, porque vi que o meu esforço, carinho e dedicação não são considerados, porque não consideram que eu sou uma aluna que se dedica e não consideram os pontos bons do meu essay, apenas o que eu não mencionei e devia de ter mencionado. Eu podia ter mencionado, sim, claro, se me tivessem dado um guia sobre o que escrever, algo que nunca me foi dado. Deram-me uma cómoda do IKEA sem as instruções de construção, e eu construí algo magnífico, mas que não corresponde à cómoda eu era suposto construir.
O ano passado perguntaram-me o porquê de eu não querer ir para tradução. Respondi que era porque estava desmotivada e disseram que não era boa tradutora.
Hoje perguntam-me o porquê de eu não querer ir para tradução. Respondo que não estou para viver o que resto da minha vida a ser criticada.
Vou terminar o curso? Sim, afinal, só tenho mais um ano pela frente. Mas não quero seguir tradução se isto implica cortarem a minha criatividade, a minha maneira de ver o mundo, fazerem-me esquecer de quem eu sou e entrar naquele padrão de fábrica. Eu não sou padrão de fábrica. Nenhum de nós é. E tentarem encaixarem-nos num padrão só nos fará mudar de rumo. Sei que vivi pouco, mas sei que se este não é o caminho, então significa que tenho outra oportunidade à minha espera.
Quis seguir tradução porque me fascinava. Continua a fascinar-me. Vou olhar sempre para um tradutor e lembrar-me de todas as traduções boas que fiz. Mas também vou lembrar-me desta nota, desta tristeza dentro de mim que me faz questionar tudo o que conquistei até agora. Não gosto disso, acho que nenhum de nós gosta e lamento esforçar-me tanto para ter uma nota tão baixa. Não sou o género de pessoa a quem podem bater na mão e dizer “não é assim que se faz”; sou o tipo de pessoa a quem, se quiserem um padrão de fábrica, têm que me mostrar as medidas e aí não haverá forma de me baterem na mão, porque a obra será perfeita, será o padrão que tanto desejam.
©TeresaBarreiros
Para o blog “Livros e mais livros”
7 de junho de 2016
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